
As tendências morreram! Morreram e foram enterradas há algumas estações. Será verdade?
Acabam as semanas de moda e você já está louco pra saber o que vai ser tendência, o que deve se vestir na próxima estação.
A verdade é que elas estão diluídas pelos vários estilos de vida, gostos e perfis pessoais que andam influenciando muito mais do que um único caminho a ser seguido. Existe uma liberdade no ar já há algum tempo. Você percebeu?
Hoje ninguém mais quer ser clone de ninguém. Há uma individualidade inerente e que grita a todo o momento dizendo: “não sou igual a você!”. E aí passamos a ver o aparecimento de “tendências” em peças customizadas, uma onda retrô, pessoas interessadas em entender como fazer, misturar e criar um estilo próprio (ok, o termo é já está banalizado, mas você entendeu o que eu quis dizer).
Nossa moda tem sido ‘invadida’ por nossa sociedade e por nossa cultura, e essa invasão tem solapado e transformado a moda de tal forma que hoje não há mais moda ‘per se’, e, de um modo mais preciso, pode-se dizer que há um retorno à condição do estilo, mas com um novo enfoque, no individual em detrimento do grupo, da tribo. (Ted Polhemus)
O que se fala hoje é mais sobre a estética, o senso comum, o gosto que se destaca do que propriamente de tendência. É aquilo que se vê nas ruas, é aquilo que o inconsciente coletivo acaba criando e replicando por aí.

Costumo brincar que esses novos ares parecem se dividir entre “antes de Lady Gaga” e “depois de Lady Gaga”. E não é porque eu sou fã, mas parece que depois desta mulher aparecer, todo mundo se sentiu mais livre pra brincar, criar e se divertir com a sua própria imagem. Na verdade, desde a década de 1990, pode tudo. É o conhecido “supermercado de estilos” de Ted Polhemus onde os estilos eram como produtos numa prateleira de supermercado: cada indivíduo escolhia o seu e misturava da maneira que desejasse. Ele previa que as escolhas em termos de vestir eram comparadas aos estilos musicais e seriam facilmente identificadas como as “tribos urbanas”. Só que ninguém é identificado com apenas um estilo. As misturas acabaram criando outros “estilos” originais e individuais.
E há muito tempo não se faz mais “moda” nas semanas de moda. O que eu observo é que acontece apenas um “start”, um pontapé inicial e o resto quem faz são as pessoas. Até porque, convenhamos, seria muito impositivo e pretensioso da parte dos criadores desejarem “ditar uma única moda”.
Com a informação e os desejos do mundo moderno, as pessoas saem às ruas não para comprar roupas ou calçados, mas para comprar estilo de vida e atitude. Elas querem decifrar de que maneira aqueles produtos podem estar relacionados à sua vida. Para isso, as marcas não podem mais meramente vender objetos. Elas precisam se reinventar e oferecer relacionamentos. (Giovanni Sartori)

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Mas a tendência morreu mesmo?
Claro que o mercado de matérias primas meio que determina o que vai estar disponível para ser usado nas coleções, mas é quase como comparar às safras de alimentos. Você sabe que existem “frutas da estação”. O mesmo acontece com os materiais disponíveis no mercado, seu valor de custo e por aí vai. Existe um mercado enorme por trás da roupa que você vê pendurada no cabide que poucos têm idéia. E esse mercado está “apenas” entre os maiores mercado que movimentam dinheiro no mundo segundo dados da ABIT (2011). Seria burrice ignorá-lo.
A “novidade” é que tudo, além de meio camuflado, está misturado com esse mundo louco über-globalizado em que vivemos onde distâncias, limites, tempo, praticamente inexistem por conta da velocidade dos meios de comunicação. Não há mais a informação bilateral. Tudo é macro, tudo é permitido, todos podem opinar sobre seus gostos e usar o que desejam (vide os blogs de moda).
Se olharmos lá pra trás na história, veremos os códigos de vestir, o pertencer. Isso foi mudando ao longo do tempo quando o indivíduo passou a se ver como único. A cada década isso evoluía. Não foi um movimento repentino.
Em tempos de “nada se cria, tudo se copia” (e esses tempos não são novos), quebrar regras parece que é a nova “tendência”.
E se as tendências morressem, como a moda sobreviveria? Acho apenas que elas mudaram de padrão, de nome e se reinventou para se adaptar aos novos tempos. Sem elas, continuaríamos em busca de inspiração para nosso “estilo próprio” e, de onde quer que ela venha, ela sempre vai existir porque, sem ela, a moda não existe e vice versa.
Fotos: Richard Avedon (caveiras) e Monica Menez (piscina)
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