Esta é, provavelmente, uma das matérias mais difíceis que eu já tive que escrever. A dificuldade não é relacionar Alice com psicodelia, mas evitar que isso acabe caindo no clichê de que tudo que é psicodélico, é efeito do uso de drogas.
O fato é que, de acordo com o site do jornal mineiro “O Tempo”, na nova versão para os cinemas, Alice não é mais aquela menina que segue um coelho e acaba caindo no País das Maravilhas. Ela é uma mulher, com 19 anos, que recusa um pedido de casamento e volta à Wonderland.

O que se sabe, entretanto, é que, para provar o seu valor, Alice resolve partir para um posto comercial que a empresa do seu pai planeja abrir na China. O país, sob domínio britânico na época em que o livro fora escrito, obrigou os chineses a legalizarem o comércio de ópio, a ceder Hong Kong e permitir que os cidadãos locais fossem escravizados.
Vocês já estão percebendo onde eu quero chegar, não é? Será que “a toca do coelho” seria uma analogia para “viagem”? No filme Matrix (The Matrix, 1999), o personagem Neo (vivido por Keanu Reeves), seguiu um coelho branco e, logo após, engoliu uma pílula que o ‘despertou’ para a realidade. Mas afinal, o que é a realidade?
Aparentemente, tudo o que faz analogia à Alice está direta ou indiretamente ligado ao uso de drogas. Nos anos 60, época em que surgiram as músicas chamadas de “psicodélicas”, também estava no auge o uso de LSD. Os próprios Beatles fizeram uso da droga e o resultado pode ser conferido nos discos SGT. PEPPER´S LONELY HEARTS CLUB BAND, MAGICAL MYSTERY TOUR e YELLOW SUBMARINE. Reparem, inclusive, que as capas destes álbuns são mais coloridas e surreais do que as demais.

A moda da época refletia todo esse movimento com o uso de muitas cores, grafismos e aquele ar revolucionário pós-guerra. Mary Quant e sua mini saia, Courrèges e suas silhuetas geométricas e espaciais, a op art, tudo isso eram degraus pra chegada do movimento hippie e o auge da psicodelia.

A banda americana Jefferson Airplane, também famosa por suas “psicomusics” fizeram uma singela homenagem ao conto de Carroll e intitularam uma de suas canções como “white rabbit”. A letra diz, inclusive, que Alice sabe a sensação de comer cogumelos e ter o raciocínio mais lento.
Não saberia dizer se Carroll fazia uso de drogas. Em nenhuma das minhas pesquisas sobre o autor ficou claro se ele seria usuário de ácido (LSD) ou, mais provavelmente, ópio. Mas em vários pontos da história de Alice e sua fantástica aventura pelo país das maravilhas, acredita-se que tudo não passou de uma “viagem” de Caroll graças ao uso de psicotrópicos
O Gato Risonho (ou Cheshire Cat, no original), por exemplo, é um dos maiores indícios de que tudo é uma “viagem”, quer seja de Alice ou de Carroll: um gato que some e reaparece quando quiser, e ainda por cima sorrindo? Relatos afirmam que, as viagens mais comuns de quem está sob o efeito de ácido é ver coisas que somem e reaparecem, e que, de fato, mantém diálogos com essas coisas.

Aliás, tudo no conto de Carroll é meio suspeito. Alice come um cogumelo que a faz crescer, ou seja, a deixa “alta’”. São, provavelmente, cogumelos mágicos. O País das Maravilhas, da forma que foi retratado pela Disney em 1951, mostra várias espécies de animais fundidos com objetos, além de mostrar uma passagem em que Alice canta com as flores. E isso bate com os relatos de psicodelia descritos por usuários de drogas, em especial LSD.

Mas, claro, que toda “viagem” pode se tornar uma “bad trip“: e no mundo de Carroll, é o que acaba acontecendo. Pouco antes de “acordar”, Alice experimenta momentos de pânico, quando tenta fugir da Rainha de Copas e suas cartas de baralho, que correm atrás dela para cortar sua cabeça. Novamente, batendo com os relatos de usuários de drogas.
Para concluir, Alice no País das Maravilhas ainda hoje desperta discussões acaloradas sobre se é ou não uma viagem induzida graças ao uso de psicotrópicos. Mas será que Tim Burton, na sua versão para a história, vai dar mais pano para manga para fortalecer essas discussões? Pelo menos, ao que parece (e pelos imagens disponíveis na rede) o diretor conseguiu traduzir bem o universo de Carroll (tanto no figurino quanto na arte do longa) e seu mundo surreal. Resta a nós, aqui do modamodamoda e, claro, a vocês que nos lêem, assistir ao filme para comprovar.
Colaboração: Alana Vasconcelos
Editoria: Julia Salgueiro
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