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Quando Ronaldo Fraga anunciou sua “pausa fashion” na São Paulo Fashion Week e declarou em nota que “a moda, pelo menos como a conhecemos, acabou” todos ficaram alvoroçados tentando entender o que houve.
Há 17 anos desfilando no evento (quando ele ainda se chamava Phytoervas Fashion) ele alegou cansaço e disse que era só uma pausa criativa para repensar.
Em entrevista a repórter Lígia Mesquita (Folha Ilustrada), ele falou além da declaração oficial e disse o que pensa a respeito do cenário da moda atual.
Foi a exposição da minha verdade. Não sou dono da verdade de um determinado setor. Apenas expus as minhas angústias.
Certamente a moda como conhecíamos acabou. Ela assumiu novas funções, invadiu e se misturou com outros ramos e hoje, até a informação de moda está mais acessível.
Não sei a resposta, mas tô aqui pra exercitar. No mínimo, tenho minha liberdade de escolha.
A resposta, como ele mesmo conta, pode estar no trabalho da bailarina Pina Bausch, morta em 2009, e tema de uma de suas coleções.
A gente saía do espetáculo dela sem saber se era dança, cinema, teatro, literatura…Com a moda pode ser assim: roupa pra comer, casa pra vestir, comida pra morar.
Ronaldo conta que escolheu a profissão por conta da possibilidade de, através do vestir, se apropriar da cultura, mas não necessariamente levantando uma bandeira para a cultura brasileira de moda.
O que não pode ter é uma relação estreita com a cultura. A moda é um vetor de interpretação histórico, econômico e antropológico.
Quem faz roupa no mundo de hoje, não pode ignorar as mudanças, as novidades e a velocidade como isso tudo chega.
Tem gente que via a coleção ser lançada na Europa, fotografava a vitrine da loja. Comprava a roupa pra tirar molde e produzia a peça. Aí outra marca copiava. Hoje você assiste à novela e na mesma cena vê a personagem rica e a pobre usando modelos de visco lycra. Visualmente é a mesma xaropada. Aí pergunto: a moda não mudou?
Quem conhece a história do Ronaldo Fraga, sabe que tudo começou quando, aos 16 anos, ele viu desenhos de uma vizinha e decidiu se matricular num curso. A partir daí, ganhou emprego em uma loja de tecidos no centro de Belo Horizonte e nunca mais parou.
No primeiro dia, quando a loja abriu, tinha uma fila de mulheres querendo roupa pra festas. Fiquei em pânico. Sabia desenhar, mas não tinha vocabulário de moda. Aprendi que a escolha da roupa é pra sempre uma conquista amorosa com você, com seu grupo.
Depois da faculdade de estilismo na Universidade Federal de Minas Gerais, ganhou uma bolsa de estudos em Nova York e aos 23 anos foi para uma temporada internacional de estudos que incluiu também Londres.

Em 1996, quando voltou para o Brasil, lançou a grife com seu nome e estreou sua primeira coleção “Eu amo coração de galinha“.
Era a história de uma galinha que ia para a cidade grande em busca da pessoa interessante que queria ser.

Na coleção sobre a China, colocou na passarela chineses vestidos de operários comendo macarrão, numa clara crítica à situação de trabalho naquele país.
Suas criações sempre contam uma história e Ronaldo já se inspirou no Rio São Francisco, nas obras de Arthur Bispo do Rosário, Guimarães Rosa, Zuzu Angel, Lupicínio Rodrigues, Nara Leão, Noel Rosa e Athos Bulcão.
Seus desfiles sempre são muito teatrais e disputados pelo público.
O espetáculo faz parte da moda. Roupas as pessoas veem nas lojas. Na passarela, tenho oito minutos para transportar a audiência para o universo da minha pesquisa.
E o faz muito bem, diga-se de passagem. Seu trabalho autoral, lhe rende críticas.
Para os que gostam e detestam (meu trabalho), a definição é que se trata de algo teatral ou regional.

A valorização pelo regional, pela cultura autêntica brasileira e pelo artesanal que infelizmente ainda carrega a definição de “coisa de pobre”, também é um traço forte em todas as suas criações.
Entender a sofisticação de uma renda renascença ou de um bordado rendendê demanda cultura, entendimento do quanto da ancestralidade de seu povo não pode morrer. Mas, no Brasil, quando você vê que não pode ter uma elite pior, vem uma mais ignorante. E essa elite é a que consome, que faz o movimento da moda dar dinheiro.
No Brasil, a moda virou uma grande bolsa de negócios e ele é um dos poucos “sobreviventes” que não vendeu sua marca.
Produzir no Brasil hoje é um mau negócio. Estamos falando de um setor pouco articulado, que vende a história de que tá tudo muito bem. O que eu invisto na minha marca vem do meu trabalho. E não dá pra colocar (na coleção) a blusa listrada da Prada, porque vende no fast fashion. Nem usar o amarelo numa cartela de cores para minhas peças entrarem numa relação de tendências nas revistas.

E sobre a moda brasileira? Sobre essa identidade nacional?
Temos algo valioso, a mestiçagem. Mas ser mestiço no Brasil é quase pecado. É pior que ser negro. Mestiço é cara de pobre. Eu sou mestiço.
Certamente a cultura de um povo e sua educação grita sobre o que esse povo é.
Não tem Armani que salve uma figura. Sou pela Vivienne Westood (estilista inglesa) que diz que a roupa sempre fica bonita no corpo de quem é ético.
E questionado pelo mestiço, palhaço e deputado federal Tiririca (PR-SP), que pediu conselhos de estilo à Fraga (Pra quem não sabe, Ronaldo é membro do Conselho Nacional de Política Cultural e frequentador do Palácio do Planalto.) em Brasília ele conta:
Ele queria saber o que vestir. Falei pra prestar atenção no estilo do Jorge Amado, de Graciliano Ramos, que tiveram cargos políticos e usavam calças de linho de cintura alta. Aí, ele falou pra assessora: ‘Você anotou o nome desse povo aí?’.
Depois de 17 anos no SPFW, o estilista ficará ausente para lançar um livro do seu trabalho, chamado Caderno de Roupas, Memórias e Croquis. A assessoria de imprensa do estilista disse que ele voltará a desfilar na temporada de verão 2013, em meados de 2012.
Foto: Pedro Silveira/Folhapress
Fonte: Folha Ilustrada




























































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