Passou o Fashion Rio (Que eu não fui nesta edição porque tava de férias. Sim, a gente tira férias!) vem aí o São Paulo Fashion Week e muita gente pergunta como é cobrir uma fashion week na real e isso significa, como é trabalhar numa? Esqueça o glamour, a montação e parte da diversão.
Ok que eu não sou expert no assunto ainda, mas indo pra meu 6° grande evento e observadora e afoita do jeito que eu sou, já dá pra ter alguma noção e contar um pouco da experiência pra vocês.
Glamour zero e muito trabalho
Sabe aquele “look do dia”? É bom que ele seja confortável. Esqueça aquela roupa que te aperta, aquele micro vestido e abstraia totalmente o mega salto alto. Creia. Não é nada confortável correr (sim, CORRER!) “longas” distâncias de saltão ou todo apertado. A menos que você seja masoquista, claro!
Se você for convidado a cocotar apenas num desfile só pra fazer carão, acredita, força na peruca e se monta à vontade.
Credencial do SPFW | Um dos lounges | Sala de imprensa
Ok, tem alguma folga nessa correria. A sala de imprensa é legal. Tem acesso à internet (óbvio! Mas, dependendo do evento, só tem wifi aberta lá), lancinhos gostosinhos, uma geladeira gigante CHEIA de Coca-Cola Light Plus free (vício), entre outras coisas, e no SPFW rola até uma cervejinha. Juro! É tudo sempre muito bem ambientado e quando você não tá na sala de desfiles pode acompanhar tudo ao vivo pelos telões esparramado num sofazão enquanto escreve ou na bancada do seu veículo.
Acesso livre
Sim. Quem está credenciado para cobrir uma semana de moda, tem acesso livre aos lounges onde só entram convidados com convite. Basta mostrar o crachá. Já fui ameaçada de morte por causa disso. Mas, se você pode, você pode. Você não está ali no recreio, os lounges fazem parte da cobertura e há muito o que se ver.
Os backstages são a melhor parte da diversão (pelo menos pra mim). Ver tudo de perto antes de todo mundo é quase como ter uma reunião exclusiva marcada com Deus antes do dito cujo criar a humanidade.
Backstages no SPFW de Ana Salazar, Jefferson Kulig e Alexandre Herchcovitch
Aí, estando você na fila A ou não (fila A é só pra quem pode muito então nem pense que você vai botar sua bundinha lá de primeira), você já tem toda noção do que é a coleção.
Existem estilistas chatos que não te deixam ver? Lógico que sim. Tem gente chata em todo canto, mas na minha humilde opinião, eles perdem uma excelente oportunidade de mostrar que são bons se mexendo de longe e também revirados do avesso de pertinho, se é que vocês me entendem.
Quem é VIP?
Bom, não é todo mundo no Brasil e no Mundo que consegue se credenciar. Se fosse assim daria superlotação só de jornalistas. Então, muita gente fica de fora. Existe uma coisa meio avessa a blogueiros, não entendo muito bem porque, mas suponho que tenha alguma coisa a ver com quantidade e qualidade. Sem mais.
E nem pense que basta a credencial pra ser mega VIP. As assessorias é quem distribuem os convites e você só entra nos desfiles com eles (de nada adianta só seu lindo crachá) e existem empresas contratadas para fazer o sitting (te colocar no seu lugar certo).
Dá pra burlar? Sim, dá sempre pra pleitear um lugar melhor se você tem algum prestígio com a assessoria e sentou na fila Z, mas pra quem já foi no backstage dar uma olhadinha de perto em tudo, não faz a menor diferença.
Desfile de Carlos Miele e Patricia Viera | Vista da 1ª fila no desfile de Walério Araújo no CDC | Dragão Fashion
Eu particularmente adoro assistir desfile do pit (aquela espécie de “puleiro” pros fotógrafos, sabe?). Sério que eu não gosto de fila A. Gosto de ver as roupas indo e vindo e a “paradinha”. De lado é meio estranho. Opinião pessoal.
Sim, já sentei numa fila A e numa international press (lugar especial pra imprensa internacional bem debaixo dos fotógrafos). E eu prefiro “bem debaixo dos fotógrafos”.
E os desfiles duram, em média, 5 minutos. Sim, essa confusão pra 5 minutos de desfile. Maravilha, não?
Comer pra que?
Na minha última maratona fashion eu perdi quase 4kg. Maravilha, não? Não!
Numa semana de moda você basicamente só belisca uma coisinha ou outra nos intervalos então, quando e sempre que sobrar algum tempinho, coma direito porque saco vazio não pára em pé e você não é modelo anoréxica. Procure comer coisas saudáveis e que vão te dar suporte pra correria da cobertura.
Cecilia Lima: Não basta ser chefa, tem que cozinhar | Eu e Ju sem acreditar na comida de verdade | 1ª comida de verdade depois de dias.
A geladeira abarrotada dos seus refrigerantes preferidos grátis pra você tomar quantos quiser é uma tentação mas, concentre na água H2O mesmo, sabe? Aquela da fonte.
As pessoas
Geralmente ninguém tem muito tempo de falar com ninguém então, a menos que você seja cara de pau (eu sou!), não espere que fiquem de papo com você. Ok. Não é tão exagerado assim. Dá pra fazer umas amizades e trocar umas idéias, mas não ache que vai esbarrar com a Costanza Pascolato ou a Glória Kalil e ficar meia hora de papo com ela (eu só consegui 5 minutos e alguns esbarrões! Kkk).
Com Constanza, sendo “perseguida” por Glória e com a própria batendo papo.
Ah, se os modelos são bonitos? Alguns são sim. De verdade e sem maquiagem. Outros já me assustaram. Não porque eram feios, mas porque eram tão diferentes na passarela que eu pensava que eram outras pessoas. A grande maioria é bem simpática. Tem as estrelas e até elas são legais (E Gisele é linda além de tudo).
E as celebridades? Na verdade não gosto muito delas porque elas atrasam desfiles quando estão na platéia e causam muita histeria quando resolvem desfilar. É eu sou chata mesmo. (E continuo sem gostar delas e as achando dispensáveis. A menos que você seja uma marca voltada para a classe C, D e E).
Os imprevistos acontecem então, sempre nos grandes eventos, tem equipe de Bombeiros e segurança a postos. Se alguém passa mal, tem socorro. E se isso acontece com um modelo? Tem que substituir né? Assim como se uma roupa rasgou um salto quebrar, tem que rolar uma gambiarra em segundos. Geralmente tudo é bem pensado e calculado. Existe uma equipe gigante por trás que envolve muita gente desde camareiras até maquiadores pra cuidar de tudo. Ah, e rola ensaio antes.
“Padrinho” Lula Rodrigues | Entrevistando Yasmin Brunet | Com Ronaldo Fraga
Jabá (vulgo, brindes)
Essa é uma das partes legais. Você vai lá, se mata de trabalhar e ver desfile (Tem uma hora que enche o saco a coisa) e, de vez em quando recebe uns jabás que valem muito a pena.
Já ganhei coisinhas ótimas! Desde livros carérrimos, Melissa (vício maldito!) e até voucher generoso pra gastar em loja. A pior parte são as eco-bags. Acredite. Junte 40 numa temporada que você vai me dar razão. Certo, elas ficam na mala do carro e, pra fazer feira são ótimas!
Trabalhar de verdade cansa
Imagine uma pessoa que chega, vai cobrir um backstage (ou seja, conversar com o estilista da marca, fazer fotos dos detalhes, ver as roupas de perto… isso tudo junto com um bando de outros jornalistas), corre pra sentar e ver o desfile, corre pra sala de imprensa pra escrever a matéria enquanto seu colega já tá no backstage de outro desfile e depois sai correndo denovo pra ver o desfile seguinte, tudo isso, pelo menos, umas quatro ou cinco vezes por dia, dependendo da escala. Me diga você: essa pessoa vai ter alguma dignidade no fim do dia?
Backstage de Ronaldo Fraga
E sim, alguns desfiles atrasam (muitas vezes por conta da própria imprensa que quer fotografar e entrevistar as celebridades globais da primeira fila). Geralmente não há atrasos, mas no final do dia com o acúmulo dos minutinhos, o dia sempre termina um pouco mais tarde do que o previsto.
E vai rolar a festa
Sabe aquelas festinhas de lançamento de loja que você vai a umas três toda semana? Multiplique por mil e não vai chegar na unha do dedo mindinho do seu pé direito das festas de uma fashion week.
As marcas mais badaladas fazem festas incríveis, do sonho de qualquer baladeiro mas, geralmente e a menos que você consuma alguma substância que te dê super poderes, você não vai aguentar ir a elas (lembra que você passou o dia correndo?).
Festa no Copa Cabana Palace | Festa da Melissa
A solução é: ponha na cabeça que é necessário socializar, se montar e fazer o carão pra não passar por chata e, de quebra, fazer alguns bons contatos (Tá no inferno, abraça o capeta!).
E nem pense em se esbaldar na bebida ou sonhe que vai se acabar de dançar. Vexame não, por favor! Ah, e você vai voltar cedo pra casa /hotel porque no dia seguinte tem mais trabalho.
É o amor!
Depois disso tudo seu sonho ainda é trabalhar na cobertura de uma grande semana de moda? Ok, amiguinhos. Isso é puro amor. Você sai todo dolorido, ferrado, mas se diverte.
Quem curte moda vai entender o que eu digo: não tem preço estar cara a cara conversando com aquele estilista que você admira, nem ver as peças de perto, do avesso, de frente, de costas e se mexendo.
A turma fashion amiga
Nada paga a experiência e as amizades que se faz e, nesse mundo de poucos onde os de fora são tão deslumbrados e não fazem muita idéia de como a coisa funciona de verdade, ver que as pessoas “de dentro” desse mundinho são gente, saber que as coisas não se conquistam sem esforço (a menos que você se venda ou tenha um bom padrinho) e que pra estar nessa é preciso muita maturidade e gostar muito do negócio se você quer durar mais do que apenas uma estação, tudo isso, realmente não tem preço! Aprendizado puro.
No final das contas, a gente sofre um bocadinho mas se diverte!
Fotos: Arquivo pessoal
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